Manifestações de Pablo Megracko

Espaço dedicado às manifestações do companheiro Pablo.

Gabriel

1 de mai de 2011

O Anjo

.
Alimento me do cheiro imaculado das ninfas virgens
Perambulo pela noite suja gozando de amizades macabras
Escarneço dos transeuntes contentes em seus romances
Arrasto meu coração tétrico; compartilho a água com os ratos

Agradeço ao Inferno por me apresentar a essência da vida
Contemplo a paz que a morte trouxe a meus irmãos
Tenho qualquer vida de mais valor em uma de minhas mãos:
a outra dou de comer aos cães
Cuido bem dos filhos das mães
Dois pães para sete fomes

Na minha morada sem paredes acontece um milagre avesso:
Multiplicam-se as bocas para a mesma migalha.

E como única verdade de meus dias sem Sol
lhe apresento um sentimento que nenhum Papa conheceu melhor do
[que eu:
Deus.

Paixão

.
Os olhos do rosto estão em outro
O outro dos olhos está no rosto
presente em todos os gestos
Fonte de todas as glórias

Incêndio nas velhas memórias
Ação inefável no branco papel
Razão de qualquer desrazão
Qualquer vôo para o Céu

Se o Sol não brilha por ti, então ele não brilha
À tua ausência o tempo é um coração trôpego
Se não viste a Lua, ela não existia

E sem teu assovio os lobos não uivam
A multidão uníssona é a toada do sôfrego
se de dentro dos teus olhos os meus olhos vão

Recanto

.
Há um vestígio de vida nas praças da cidade
Escondido sob a terra, sustentando as origens
Buscando a essência intacta na memória suprema
Evitando as premissas e dispensando a certeza

Transeuntes distraídos se esquecem das raízes de forma irreversível
E a cada novo espinho de rosa, a prosa dos homens é mais indistinta

E os serais místicos dos gatos
E o sonho nocturno das flores
Almas inquietas das praças
a rir do choro contido
dos figurantes dispersos
Aram a noite estrangeira
e esperam o calor do Sol
que alimente a escuridão
a novo período eterno

Deus, louve o vestígio de vida nas praças da cidade

Ratos

.
Na minha ausência
e durante o sono
Os ratos comeram meus pães
e beberam minha água

O que eu podia fazer?
Faziam o que queriam
Enquanto eu sonhava
os ratos viviam!

Sujaram a mesa
e roeram as frutas
E não me esperaram
pro café da manhã

Não gostei disso
Então comprei tijolos
e vedei meu lar

Me isolei dos ratos
e fiquei só

Diga-lhes, pó

.
Sol de prata da meia-noite
diga aos homens quem sou
diga a eles que não estou aqui
que danço à roda de fogo na estrada

Lua dourada do fim dos dias
diga-lhes que é só o começo
que é só a areia branca no mar de sonhos
que sou plâncton perdido nos pés dos amantes

Diga às moças que sou vento flutuante em popa
enquanto na proa os autos choram e riem e morrem
afogados no mar que ouvia só o violino lento
enquanto os romances se acabam na noite estrelada

Diga às paredes e à poltrona e ao piano o que sou
discreto como música suave na intimidade dos casais
E na noite fria, à vela no quarto do mar, sou as descobertas
Sou o som que para e um uivo de longe, só não estou lá

Chuva de raios do vento de maio no meio-fio da vista que voa pela
[janela
diga aos homens que danço à roda de fogo na estrada
que sou plâncton perdido no pé dos olhos dela
que sou vento em popa e não quero outra coisa
o silêncio da música em tempo do uivo distante
o percurso do olhar de rapina no pôr-do-sol
que sou paixão entre dois olhos infantes
o incêndio sólido entre os corpos
a fronteira entre luz e sombra
o tempo entre ficar e sorrir

De alegria chorei
de tristeza parti
na terra sã

Sou Nanã
os olhos que despertam a manhã

Retirante

.
Depois do tumulto, quando me vejo só com a noite
Então é tempo de a terra vibrar
e tudo à volta é luz
e é sombra

Então meu coração já não espera. Descontrolado, rastejo no ar
Choques violentos alimentam a quimera
Lentamente gozo
até chorar

Já não me escondo. E não me importo
Estou alado e não quero pousar
Não me espere, não fale alto
Estarei comungando com os mortos

Nada mais suave, lento terremoto
Vivo nos corpos corre o sangue louco
Ouço as horas, são sinos histéricos
Junto os ossos e agradeço o passeio

Adormeço.

Corpo Presente

.
De quem é esse corpo
que caminha por mim
Sob o céu de espanto azul
Esse pulso etéreo, esse véu de luto

E que a qualquer instante
sorri perverso, ri do mundo
Desencanta o deslumbrado
e alheio apogeu

Quem foi que viu
que sobre o mar de estrelas
um manto de névoa
flutua lento, veleja almas?

Não fui eu!, não fui eu...
que perscrutei a fuga do ventre
e desejei o frio, essa peleja
Oceano sombrio, tu é que me amas

Amor fugidio, é tu que me queres
Voz da estrada, canta!, flor em chamas
Beato!, porco imundo abençoado
Meu sangue arrepia... sem sair de curso

Gritos histéricos: meus tímpanos berram
Não sou eu!, não sou eu...
quem escarnece do amor eterno
Não é meu o corpo adúltero que envelhece

Não fui eu quem mudou o ritmo dos amantes
Que chorou e riu na aurora noturna
Que escapou do cárcere da solidão
e iluminou os serais dos corpos

Não é minha a paixão
pelas filhas da terra
e o desejo de morrer por elas

O fim não é meu
é dos anjos e das trevas
Nem por mim é que velas

Os olhos da vigília
são todos os homens
de todas as selvas

A tristeza dos teus dias
fui eu que matei
Mas não são minhas as mãos
que enforcaram tua dor

Nem é nosso esse amor
nessa cama sem dono
Vê bem quem tu amas
que toca-te os pomos

Amor do mundo! Amor do Mundo!
É tua a saliva que enternece
É teu, é todo teu este sorriso
absurdo que amanhece

Irmandade

.
Quando encontramos a morte nos sonhos
nasce nas flores o nome da estrada
Olhos no mundo e os pés na muralha
Nossos impulsos derrubam rebanhos

Nenhum de nós se espanta entre os ossos
Nenhum revés detém nossa entrada
Por entre os homens da nova cidade
o corpo vibrando acordes nos olhos

Ah, irmão na estrada só
Eu estou contigo lá
Feito horizonte em pó
Peito ao sol, cantiga ao mar

Não te esqueças, nem por dó
Teu caminho é sem parar
Segue o vento enquanto choras
Corta o céu rasgando o ar

Céu Azul

.
Sempre há um corpo esticado sob o céu esplêndido
Bronzeando seus vermes e alheio aos choros mudos
Salivando o desejo da terra pelo banquete, cruelmente negado

Trancado na árvore morta o corpo morto desce para o escuro
Coitado do céu, foi-lhe arrancado o direito de polir a morte
Foi arrancado ao vento gélido o prazer de esvoaçar os cabelos inertes
Os vivos rogam a si o direito de chorar e enterram o que sobrou do
[homem, que nada dizia
E nem sequer percebem que sob o céu azul sobraram sós os homens
[tristes no cemitério
Um corvo cruza o cimo. Da cova preta um par de asas brancas
[borboleteia ao cerrar da tampa

Do lado de fora, o casal contente pulula sob o anil melancólico dos
[homens de dentro
O céu abraça a todos.

Memória

.
Milhões de estátuas são a memória
Por todos os lados e de todas as formas
Fitando todas as minhas faces possíveis
Estátuas do amor, estátuas da fúria
Com caras de dor e de luxúria
É a memória minha quimera

Mulheres formosas e homens raivosos
Crianças famintas e velhos devassos
Deuses gregos, indigentes esquálidos
Todas se movem ao piscar dos olhos:

Mulheres devassas e homens famintos
Velhos esquálidos, crianças raivosas
Negros formosos e deuses indigentes
Todas choram e todas cantam
Todas dançam ao redor das rosas

E eu e as rosas e espinhos e perfume
Nos misturamos no presente insólito
Gravado no pergaminho com sangue
Estátuas e eu e costumes futuros

Futuro! Futuro! Projeção do Passado!
São milhões de memórias minhas estátuas
Mirando furiosos semblantes sem olhos
Luxuosas rosas de espinhos enormes
Com todas as faces de lúgubre cor
Mulheres nuas ventando os trigais
Memórias de sonhos impossíveis
Agora eu sou pedra e tu és quimera
meu amor de olhos tribais

As Vísceras do Luxo

.
Na cidade onde vivo, quando cai a noite
o luxo mostra as suas entranhas
Começa a farra dos loucos

No lugar da gente cheirosa
surgem indigentes manicômicos
No lugar dos bons modos
emerge um tumulto barulhento
de corações lacônicos
refletidos nos cacos do resto
abandonados no caos da existência
resistindo no mal da esperança
o único bem que sobrou...

É quando estou à vontade

Segundos

.
Noite limpa. Grito triste. Balão passando. Frio eterno. Água pingando. Pano voando. Folhas longas. Vento soprando. Estrela pulsando. Luz vermelha. Música lenta. Vultos brincando. Azul escuro. Céu distante. Véu no mundo. Acorda sonho. Dorme vida. Vida sonho. Dorme e acorda. Acorda e dorme. Sonho vida. Vida dorme. Sonho acorda. Véu no mundo. Céu distante. Azul escuro. Vultos brincando. Música lenta. Luz vermelha. Estrela pulsando. Vento soprando. Folhas longas. Pano voando. Água pingando. Frio eterno. Balão passando. Sussurros. Noite limpa.

Cessar Fogo

.
E se me desfaço em lágrimas, não é mais tristeza
E se agora deserto, amigos, é a secura do mundo
que se me apresenta após conhecê-lo às entranhas
Se agora sou estranho, é para guardar vivos os punhos

Abandono as aglomerações extasiadas de ilusões
Vomito dentro dos beijos das donzelas maquiadas
Agora já é dia e não temo mais os segredos da noite

Me retiro do fronte onde matei incontáveis alvoradas
a decifrar um a um os olhares cheios de estórias
despidos pela loucura, sem saber o que os guiava

Confino-me no lúcido caos que há dentro da mente
e deixo-os arrasando tudo no desatino mecânico
que vez ou outra arrebenta um coágulo vermelho
que atravancava a catraca cinza do motor satânico

Adeus! O caminhar anda sozinho
Meu sangue não é óleo de máquina
Eu não tenho miras, tenho olhos
Não vim ouvir berros, vim ouvir música
Não faço discursos, faço versos

Desdia

.
Vamos comemorar a minha demissão
Vamos celebrar a morte do meu irmão
Cinquenta anos da Bomba Atômica
Vamos brindar à chacina no Carandiru
Uma cachaça pelo assassínio do Lorca
Um baseado em homenagem à burguesia
Um tiro no pó nas notas dos comerciantes de Arte
Uma na lata em homenagem aos produtores de Crack

Vamos comemorar na Praça Central
Junto com os mendigos e os viciados
Junto com as putas e os travestis
Com os poetas e com as poetisas

Ando procurando na face vazia do Senhor
Refletida nos caldos negros da praça da Sé.

Será que eu perdi alguma coisa, senhores?
Que mais vocês deixaram pra Maria e pro Zé?

Que pena

.
Discreto lamento na luz da manhã
Dor gentilmente fraca e constante
Um esboço de tristeza no sorriso
Um doce amor de tempos distantes

Solta, só e envelhecida
Folha leve de fim de tarde
Fim do verão, brisa lenta
anuncia o calor que finda, sem alarde

Saudade fria dos teus olhos antigos
De gestos ágeis e despreocupados
Passo a vista por velhas miragens
Mas agora, solene, a tristeza é vazio

De nada adianta fugir do frio
Sereno e tristonho o poema vem
Pluma lívida; pena macia no céu
E pousa no colo, vindo do além

Aiai

.
Lêmure noturno de Madagáscar
Luz tênue do corpo entre ramos
Os olhos delatam certo frêmito

O céu cor noite entre sombras absolutas
surge em nesgas entre árvores negras
E sensîveis formas arredondadas das frutas
Impossíveis frutos dos desejos

Seu corpo delineia-se entre espantos
Nosso amor empenha-se no susto gozo
O encanto devaneia no medo do esporro

O escuro abraça nossos corpos nus
em atos frenéticos, com nada a perder
Trêmula coragem nos impele a seguir viagem
pela luz das sombras; pela terra a saber

O seu sussurro ecoa pelo cerrado o prazer
Ansioso, atento ao sutil toque do amor
seu gemido staccato passeia pela natureza

De um certo jeito

.
Me aventuro pelas ruas como se fossem a selva
Atravesso estradas como se fossem fortuna
Gasto dinheiro como se mutilasse o céu
Desmancho as horas, uma a uma

E quando achavas que eu estava rindo
estava olhando os sapos... coaxando de ti
E quando esperavas que estivesse vindo
me esforçava a me perder por aí

Aquelas ruas medonhas da Estação da Luz...
andava sobre elas com poderes divinos
Entre as mulheres tristes de corações nus
era como se derretesse no limbo

Talvez olhes o céu num dia de inverno
e o azul distante seja uma lacuna
Pode ser que quando disseres o certo
tua boca ainda assim mexa muda

Ou serão teus ouvidos ainda cegos?

Caminho de Chão

.
Venho de longe desde sempre
Não tenho muito do que duvidar
a distância é inclemente
A partida é recente
mas não quero deixar mágoas
É só o curso das águas
ou do sangue, ou da gente
De qualquer maneira
é uma sede doente
de rachar as tábuas
de virar os copos
de parar o mundo
de esperar a estação
guinchar com os porcos
e no agudo profundo
viajar um milhão

Venho de longe desde sempre
Não tenho muito por que chorar
Entendi de tanto olhar
o sofrimento dessa gente
que nos olhos já se sente
a esperança feita em lágrimas
A moringa e a estrada
de terra batida e sola quente
O coração à beira
de um sonho latente
A vida uma fábula
de fim inócuo
um sono sem fundo
No caminho de chão
com vivos ou mortos
e mudos vagabundos
compartilho a solidão

Bêbado do Céu!

.
Bebadamente ele caminhou pelo céu
Tropeçou nas nuvens e caiu no mar
Encontrou tesouros e deixou no bar
Despiu ninfetas e acordou pastel

Trouxe flores e deixou murchar
As piadas não tinham o final
Cantou a mulher do general
e correu até desmanchar

Tinha os olhos em Bagdá
Andava o tempo todo a pé
Não sabia mais quem chamar
foi chorar no último Café

Quando tinha que nascer
disse que estava exausto
E quando tiver que morrer
disse que vai para o alto

Alex

.
Vai-te, irmão
Ser vida no vale das sombras
e na chama das velas
Não deixas nada que nós aqui
almejamos ganhar

Vai, Alex
Ser luz de tarde nas ondas
e do mangue os insetos
Ser o Oeste e o deserto diz:
"Tua alma é meu lar"

Vai sem dó dos que ficam
porque estes homens têm muito o que andar
Torna-te em luzes que singram
no vácuo do sangue em nós a pulsar

Vai-te no pó do infinito
porque o teu nome não vão mais chamar
Porque os homens que dormiram
não vão mais poder contigo voar

Porque agora és sagrado
Um sol cravado no fundo do mar
Porque agora és mistério
Um velho prado na luz do luar

És a fé dos homens sábios
como a vida te deu de pensar
Porque agora és o ferro
da estrada de trilhos e a tarde a findar

Vai, irmão
Dizem que os mais espertos vão antes
Você agora é mais esperto que eu
Você agora passeia entre os elefantes
E a tua alma eu agora canto
pra lembrar teu batuque entre os meus

Descanse em paz no ventre de Deus.

Ixtlán

.
E pra lá daquele muro
o passado será mudo
e nunca teve futuro

É puro presente claro-escuro

Visões da última estrada

.
A sombra e sol das esferas
contempla o tempo de luto
Ilumina!, Sol-nascimento
e adormece na sombra dura

Do vento azul da espera
brota o verde do fruto
Fermenta!, Sol-crescimento
e esmorece na sombra futura

A vida em volta resiste
assim como existe o caminho
e o caminho olha o mundo

E ainda que a prece evite
há quem ore cedinho
e há quem ore no escuro

Acelerador de Partículas

.
Ao Homem, toda a alegria será cobrada com tristeza, caso contrário, existiria paraíso. Todo alumbramento será cobrado com tédio. Toda grande descoberta será cobrada com sombra. Já não faz mais sentido brigar contra as bombas na lua ou os aceleradores pra que sobrem recursos para os pretinhos esquálidos comerem ao menos uma refeição por dia e meditarem sob a luz vitaminada dos sóis nascente e poente no resto das horas de fome, virou tudo um enorme templo de contemplação da miséria e da riqueza, uma densa poética, um imenso instante. Coloquem cintos de segurança nos bancos do universo e acelerem suas crianças para desintegridade.

Da noite seguinte

.
Como pra chorar, a água devastou. E pra respirar, a noite foi linda. Como nos velhos tempos, nós e as crianças... antes da água. Como na antiga aldeia... como na antiga aldeia.

À volta, só os habitantes do meu plano, o resto era caso, mata, gente.

Mas agora é diferente. Agora a noite é fresca, frígida e triste. E eu sou denso, quente e contente, porque a noite me quer assim, e assim obedeço.

Se há uma coisa que me deixa satisfeito é fazer o que a noite quer: se a noite está acordada, ela quer sonhar; se a noite quer andar, ela vai parada.

E nesta noite bonita, contemplo a bonança límpida e nostálgica que a tempestade deixou. Vejo o mundo de tamanho imensurável, abro os braços e me entrego pra sempre, sempre que for agora.

Noite Cheia

.
Estrelas e Lua
e fogo nos olhos
O Outono entre os lábios
a flor entre os mortos
no azul prateado
enfeitiçados corações
desavisados

Vampiros transitam
e sem o meu sangue
Sem o meu sangue!

Quem Sou

.
Sou quem está abaixo do macro
e acima do micro estou quem é
vivo no tempo em que o tempo vive.
Estive antes e depois da fé,
onde poucos Homens habitam,
livres de memórias e premonições,
e naturalmente incitam
lembranças e iluminações
nos outros demais no mundo.

Sou quem é quando a chuva cai.
Sou o céu em choque, o céu que ruge.
E sei quem é da mesma matéria
pelo que dos olhos sai...
pelo instante percebido no mundo
Sabendo não ser mais
que o grão de sol de um gemido
e tentando não ser menos
que lúcido e nobre vagabundo.

Estrada de Todo o Sempre

.
Vejo chão, vejo céu, vejo não
Só me vou, tu não vens, arde o sol
Voa o trem, vai amor, dorme o sol
Bem na beira vai passando a tua mão...

... vem comigo ser feliz na escuridão
Chama o povo pra sair da solidão
Diz pra Glória e pra Maria que eu já vou
Vou sem pressa, vou sentido que tu for

Me clareia meu caminho até o fim
Leva a rosa pra você gostar de mim

            ---       ---       ---

Vem chegando o Outono na estação
Vou chamando toda a gente pra visão
Vem cantando cada voz o seu refrão
Vou ouvindo o clamor da multidão
Dizem: Pai, dá pra gente a sua mão

Vou embora pronde a lua seja o Sol
Pronde o sol seja luz no meu Sertão
Vou caminhar, vou procurar o meu Amor

Vou sem pressa vou sentido que tu for
Alumia meu caminho até o fim
Leva a rosa pra você lembrar de mim...

Templo Contemporâneo

.
Vejo horizontes, o sol e o vento
Vejo prédios, árvores e corações
Vejo lágrimas, mulheres e sorrisos
Vejo, em cada olho, a constelação

Tenho vontade de inspirar mais fundo
Tenho desejo de me sentir melhor
A cada estrada quero ir mais longe
A cada partida o mundo é maior

É necessário dizer a todos
de um modo que todos entendem
Que cada um tem em seu poder
tudo o que todos sentem

O vento toca a minha pele
A minha pele toca o vento
O tempo toca o sino verde
O sino verde...

Índia

A poeira toca a água
e a água pinta o céu
A mulher vem da graça
vestindo loiro véu
A mulher entra na água
e a água na mulher

O homem vem e mata
Morto, sorrio para o homem
E o homem sorri pra mim
Em seguida, chora

O horizonte toca o corpo
Os olhos tocam o horizonte
Eu queria ser a chuva
O fogo queria ser eu
Eu é a chuva
e o fogo é eu

Meu Deus, seu Deus, nosso Par.
De ninguém, da serpente,
do serpentear.

Sob o longo repouso do olhar,
flutuando calmamente,
uma pena vem pousar.

As Estruturas (No Coração do Mundo)

.
Inseto à meia-luz
Sombra de pé de mesa
Rádio baixinho no jogo
A vela acesa que pus

Do fogo a sombra acesa
Frêmito de olhos ocos
O sorriso após o susto
Obscuro oculto na beleza

O instante após o soco
O alumbramento do justo
na barriga da pobreza
Na asa do corvo

O amor que a tudo conduz
Infinito para a tristeza
Alegria selvagem do gozo
A vida que a morte seduz

Solidão

.
Folhas farfalham. É o vento.
As flores murcham. É o tempo.
Estrelas brilham. Manto Preto.
Lágrimas pingam do pássaro negro.

No alto, lá no alto da tristeza,
Vejo a nuvem em forma de alegria.
Intocável, passageira de si mesma;
Impossuível

A imagem de mim mesmo é vazia.
Nesta noite ninguém veio ser visível.
O silêncio faz a mão dançar os dedos.
Nenhum corpo vai fazer nascer o dia.

No colo mudo só o sonho é macio.
Só as almas perambulam livremente.
Nem os ratos ficam sós no meio-fio,
Porque o vazio é a coisa só da gente

Impossível.

O Caminho

.
___Então o Homem parte em busca do infinito, de Deus ou da morte. Como quiser. E este percurso o Homem caminha nascendo, chorando, ouvindo e crescendo. Sorrindo, escapando, descobrindo e se perdendo. Cristalizando e afirmando, querendo, sempre querendo um pouquinho ou bastante... e envelhecendo. E Ele o faz através das horas, das ruas, dos pássaros, das aventuras, das escolas e dos furtos. Da fome, dos supermercados, carros e cozinhas. Das alfândegas, dos olhos e dos aviões. E vai seguindo rumo ao nada, vindo de tudo.
___Se parássemos ao menos uma vez para ouvir todos os sons, para ver todos os olhos, para sentir o toque, o toque que nunca nos deixa indiferentes... Se olhássemos fixamente, ao sol, e escalássemos a maior montanha e amássemos alguém para sempre... alguém que veio do Sol, alguém que vai para o Mar, alguém que ouve o Vento...
___Os sinos partem. Temos a impressão de que partem não para longe, mas para o futuro. Não temos mãos para possuí-los, nem olhos para admirarmos eles. Nem coração do tamanho do tempo. Nem passos do tamanho dos sons. E dos ouvidos, quando chega o silêncio, partem os sinos para dentro da imaginação, onde viajarão todo o tempo, por todo o espaço e pousarão, como nós, pela terra, cansados e satisfeitos.

A Tarde

.
Lá um voo no céu
e um pouso na terra
um passo no chão

Do passado ruínas
sobre o corpo que erra
de futuro nas mãos

Sob a tarde continua o coração
A tarde em que a morte se confina
na brisa em que o vento se encerra
e pela terra espalha o seu grão

Berra, pássaro meu, berra tua sina!
Deixa, esquece uma pena em meu quintal
Dá à luz do sol o movimento que firma
a presença de nosso Deus e completa o Ritual

Amor

.
Os homens se debruçam sobre as mulheres
que esperam os homens
sentadas, deitadas, engraçadas,
vigorosamente passivas.
E os homens caminhantes, de pé,
ativamente dominados
por olhares, pelos sorrisos,
por deliciosos mimos.

Diz que sem ela não vive
e não vive mesmo.
Vive perscrutando
qual sinal de gracejo
lhe trará encanto.

Um passo atrapalhado e os caminhos enroscam.
Um sorriso e os olhos estalam.
Tudo perdido, tudo encontrado.
Tudo certo, nad'é errado.
Amor começa, amor se acaba.
Os homens se debruçam,
as mulheres se afastam.

E... se engatam,
o trem vai
até o deserto...
ver de perto quem é esse
que secou toda mágoa;
ver, desperto, quem é ela,
sozinhos na terra erma,
e beber do seu oásis.

E viver ali:
sólidos, líquidos, cosmos,
espanto contente nos olhos.
E viver ali:
ótimos, vívidos, pólos,
enquanto tangerem os poros.
E viver assim.

E se, num dia, vier
O Medo do Fim,
nunca esquecer, nunca esquecer!,
assim como nunca se esquece uma cor,
que é tão tênue o fio do amor
que, de tão delicado, tão fino,
pode ser que dure o infinito.

Quatro Contemplativos

.
Corre a roda
Come o chão
Leva a saudade embora
Leva a saudade
Leva embora,
leva...

Range a porta
Tange o vento
Range o silêncio do tempo
(ruge o silêncio)
Urge o tempo,
lentamente...

Desce a tarde
Chega a noite
Nasce a lua no horizonte
Nasce cheia
sobre a rua...
Perfume.

Vem o trem
Vem de longe
Vem trazendo o meu amor
Vem trazendo...
vem, amor,
vem.

Matéria-prima

.
Pó de estrela
é o que sou
Entre a gente
luz e rosa
noite e espinho...
pó de estrela

Sou poeira
entre o azul infinito
e o vermelho profundo
Entre a gente
verso e prosa
força e carinho
flor no mundo...
pó de estrela

Noite cheia
Vai a gente singrar
o denso de cada alma
entre o caos e o mar
Sinto calma
e posso matar
Lua e meia
sou poeira

Noite e meia
entre o pó no chão da estrada
e o céu de pó de estrela
Entre a gente
lua nova
trilha alva
mão certeira

No teu sopro vem o sol
pousar na minha palma

Naturalmente

.
Se a quantidade de vezes que o meu coração sofreu
desse estrelas no céu,
o céu seria o mesmo.

Se de cada sorriso meu
brotasse um lírio ostentoso,
teríamos tantos lírios lindos
como temos hoje.

Se a cada choro teu
morre uma criança,
pode chorar sem culpa,
há na morte alguma esperança.

Quando o vento soprar forte,
é o pulso do sol no sangue do tempo.
Quando o sino soar morte,
é a chama de Deus queimando por dentro.

Proteção

.
A tarde fresca e tranquila se transforma em barulho e fumaça:
O caos eu transformo em prazer.
Sob as construções impiedosas dos homens
edifico pensamentos para aquecer.
A multidão vem, ruidosa e implacável.
Por dentro, faço barreiras de imaginação,
para que fique clara a diferença
entre realidade e ilusão.

Dentro da Noite

.
Fora da esquina tem uma rua
Fora da rua tem uma casa
Fora da casa, o quintal e a lua
Fora o luar, não tem mais nada

Fora da esquina tem uma rua
Fora da rua tem uma estrada
Fora da estrada é noite escura
Fora o luar, não se vê nada

Dentro da noite...
dentro do escuro ecoa
Na sombra da lua se vôa
Se é que se foi
vai no preto da rua.

Noite adentro
Vulto de homem caolho
Sorriso de fêmea no escuro
fugindo pra dentro do mundo

A noite fala...
A noite fala muda
A noite muda...
cala.

Tcharli

.
Tcharli estava sentado
e fumando na privada.
Ele deu um bom trago
e divertiu-se na fumaça.

Tcharli produziu sons
que só ele poderia.
Só! - como estava bom! -
E o aroma lhe vinha.

Eram obras suas,
que estavam mais perto
de seu coração
que sua cabeça dura.

Bateu o pé no tempo,
batucou com a mão,
tentou aliviar-se...
se esforçou como um cão!

Enfim que saiu muito!
Não ficou vermelho porque era preto.
Sorriu satisfeito, com suspiro e tudo!
E sorriu como Deus sorriria.

Ver o Mundo

.
Por que sairia do lugar para ver o mundo
se da janela os telhados vermelhos das casas,
tão parecidos, são diferentes;
se as pessoas de gestos são parecidas
e tão diferentes;
se o centro da cidade é cinza
e os arredores são verdes?

Por que querer mais um minuto
para ver que os ciclos se fazem,
que os copos se quebram
e os insetos se desfazem na vidraça?

Ninguém precisa do mundo todo
para estar na estrada.
Basta rastejar no escuro
da sala para o quarto.
A viagem é o percurso
que se faz com a alma
de um corpo para o outro.

Os livros não são, em si,
fonte de conhecimento.
Para um desavisado
são só passatempo.
Há quem os tenha lido
é já ultrapassado.
E há também os livros
já feitos sem tato,
sem mar, cidade ou vento.

Mas a escrita é um veículo sagrado
através do que o Homem entalha
no tempo de cada espaço
as suas visões do mundo,
o feito cristalizado de cada segundo:
na superfície de uma ferida;
no pacto imaculado dos seres
do subterrâneo imundo;
na fé alcançada e esquecida;
no átimo da partida;
no olho calado
do moribundo.

Complementar

.
Ando pelos que não andam
Canso pelos que não param
Olho pelos que não vêm
e fecho os olhos quando é tarde

Corro pelos que não correm
Fumo pelos que não saboreiam
Canto no funeral dos homens
e me guardo pelos que guerreiam

Desisto pelos teimosos
Sangro pelos apáticos
Sorrio pelos raivosos
e choro pelos que não choram

Peço licença para o vento
mas destruo coisas sólidas
Os dias que passam lentos
findam em sonhos de noites tórridas

Mascote do Estado Geral

.
Os ratos passeiam no quintal e nada pode pará-los.
Parecem menos antipáticos que seus donos.
Penso em matá-los a pauladas e pontapés, mas veja,
seria como matar um rei em seu trono.
Logo perdôo toda natureza.

O Homem tem por instinto ser sorrateiro,
e aquele que faz por não ser, se vê cercado,
acuado por ratos em todos os volteios.
Por isso que o homem de posses é, de fato,
o maior dos ladrões de queijo.
E há dois tipos nesse nosso meio:
Os que compartilham com os camaradas
e os que entre os sócios fazem o rateio.

O segundo tipo também é um rato, mas é um espécime estranho:
têm asas de urubu, corpo de rato e um bico escorregadio de tucano...
(suspeito...)
Como homens, têm algo de rasteiro na risada,
sempre passando o pano no chão frio
(passado por mão pagas)
para torcer no ralo os pensamentos
esparramados como poeira pela casa.
Miasma.

Assustados e infelizes os nossos mascotes, os ratos.

O Sangue de Deus

.
O céu é azul
mas o sangue é vermelho,
é a marca na pele...
o sol que aquece os desejos.

Na sombra da tarde te espero,
sentado na beira da vida.
Trago no peito a luz
e na boca o gosto
da sua melodia.

Não há farinha sem trigo
Não há feijão sem farinha
nem arroz sem feijão
nem peixe sem pescador
nem pescador sem jangada
nem paixão sem saudade
nem vida sem dor

Daqui não vejo você,
mas vejo trigais e saudade,
peixe, pescador e jangada,
dor, paixão e verdade.

Daqui não há distância,
há estrelas que a noite vai trazer
e o vento doce que a tarde trouxe.
A esperança nos seus passos
é que pode trazer versos.
Os versos é que podem ser sonho,
e os sonhos, o fato, a realidade.

Daqui não há tempo,
não há futuro nem memória.
Há a noite que a lua vai fazer,
o amor que vem e vai embora,
a maré que à noite vai encher,
a paixão que espera e chora,
um velho amigo que passa,
um lamento escuro que ora,
uma roda que canta
e o preto que toca
melodias de jangada
e de saudades de casa.

Agora é o que foi.
E o que vem, virá agora,
à noite, que vem enorme,
trazendo o antes e o depois
condensados no mesmo mantra,
juntos no mesmo nada,
no mesmo sonho que dorme
no limiar do horizonte...
no colo da aurora.

Maré Cheia

.
Nas esquinas estão traficando
olhares,
drogas,
sustos.
Estão transitando nas calçadas:
vômito,
fumaça,
dinheiro.
Baixaram esbanjando charme,
poeira.

Lua
e sombra.

Brancos são os faróis do inferno.
Negros são o sono e a paz.
Não enxergo! Não enxergo!
E por quê, então?

Mas não há tempo...
Um presságio cruza o ar...
O clarão repica no céu...
Lágrimas!
Algumas bocas tolas se abrem...
algum mosquito sempre entra,
mas nunca os vejo saírem...
enfim.

Enquanto chove, relâmpago.
É noite de lua cheia,
sexta-feira.

Sob os toldos dos estabelecimentos comerciais onde os trabalhadores
[cansaram
o futuro se esconde
da água que Deus mandou para si mesmo.
Relâmpago.

No escuro casual estão traficando
sorrisos,
filhos,
sexo ilícito! Sexo ilícito!
Passou a polícia...

Relâmpago!

"Estão todos proibidos! Mendigos fascistas!"

(Do lado de fora de um casamento luxuoso
a maré vai subindo...)

Um rugido grave e distante quase não se ouve:
Alguns sentem uma pontada de ansiedade...
O coração vibra,
a chuva passou,
vamos andar.

O pólen das fêmeas
faz coçar o nariz dos machos.
Cachos dourados de nuvens rápidas
e vestido negro.

Sonhos rastejam no ar.

O futuro se espalha pelas ruas.
A lua espia,
faz sombra...
Relâmpago.
A lua sumiu.

Estou animado: o mundo de olhos estalados!
Lindas lágrimas inocentes.

Eu não desisto,
procuro vultos no negro de toda pupila.

De passagem, o poeta fala,
encarnado em sua cobaia:
"Cobaias!"
E o espírito do poeta se dissipa no ar...
sua cobaia cai,
bêbada, esquecida...
Relâmpago!

Na noite vigorosa
o tempo pára...
e um velho amigo me lembra daquele pântano.
Fico excitado.
Respiro fundo.
Desejo a estrada.

Mulheres gargalham como lobas bêbadas para a lua cheia.

"Mãezinha está aqui, mãezinha está aqui!,
toda de azul",
(Relâmpago!)
fala a criança
e passa.

Espírito?
Passou um...
agora mesmo.
E passa.

Vejam! Realmente...
o mundo está doido.
Os cachorros latem...
a lua está cheia demais!
Insisto.

...
(...estou de olhos fechados.
Meu bem segura a minha mão.
Estamos na beira do mar.
Relâmpago no Fundo do Mar!)
...

Dou um trago na fumaça,
abro os olhos, seguro e passo.
Agora vejo seres imortais desmanchando no solo.
Soa a sirene da fábrica, estamos em guerra!:
Vem a tempestade!
Relâmpago.
Vento de sonhos.
Cidades, Esconderijos, Florestas:
Relâmpago.
(O clarão repica no céu)
Saudade...
efêmera.
O futuro aparece e esconde.
Pântano!
Aí vem a tempestade.
Os corações transbordam juntos...
memórias, relâmpago!
(o tempo pára)
(Os gatos se escondem, atentos.
Os cães detentos choram;
os livres se juntam aos gatos)
A cidade está subindo, relâmpago!
O mar está crescendo... tântrico...

Rua, ar fresco, pessoas, bares, música.
Mulheres & Homens.
Bonança, agora.
Risos & Sorrisos.
Noite...
Vozes doces, tilintar de copos de cerveja...
Silêncio...
Risada, vozes doces, brindes, olhares...
olhares & sons...
Silêncio... um presságio cruza o ar.
-- o vento...
Acendo um cigarro, contemplo o movimento
e espero...
espero...
(sons)
vozes, brindes, a rua...
o coração palpita: um trago...
Uma lembrança, o futuro, uma angústia...
um tempo, um vulto...
bonito!
Um trago... solto... olho:
estrela, nuvem, lua...
Cheia! Cheia!!
Maré?, a vida?, surpresa!:
Memória?:
Relâmpago!
Quântico?
Relâmpago! Relâmpago!!!
Marejam
os olhos
e entendo!:
Relâmpago!
A vida está sendo!
Meu Deus, Relâmpago!
Os homens estão a sonhar.
Vejo os olhos, negros, no ar...
relâmpagos...
Os homens estão a sonhar.

(pausa...
silêncio...
expectativa...
...
...

...)

Em um único, potente e grave estrondo,
exatamente no meio da noite,
sôa o Trovão

(...
...

...),

enche de ondas o coração...
A vida vibra
como se tivesse acabado de criar.

Todos, disfarçadamente, olham para o céu,
desconfiados...
e, sem pressa, voltam a conversar.
Dou o último trago
e vejo tudo continuar.
O estrondo ecoa pelo meu corpo.
Vozes doces, noite fresca para amar.

A paixão continua no ar
e os copos a dançar.
Me levanto, vou embora.
Agora caminho na rua molhada,
brilhante.

Cachos negros de nuvens lentas
e vestido branco.
A tempestade passou.

Nas esquinas estão rindo,
beijando,
passando...
passando...

Um último, disperso e grave coro
ruge do céu já de estrelas...
sonhos flutuam luar...
E a noite abre suas asas...
porque a noite é infinita.

E a lua dourando me lembra,
como no velho presságio,
que também é infinito o mar.