Manifestações de Pablo Megracko

Espaço dedicado às manifestações do companheiro Pablo.

Gabriel

1 de mai de 2011

Amor

.
Os homens se debruçam sobre as mulheres
que esperam os homens
sentadas, deitadas, engraçadas,
vigorosamente passivas.
E os homens caminhantes, de pé,
ativamente dominados
por olhares, pelos sorrisos,
por deliciosos mimos.

Diz que sem ela não vive
e não vive mesmo.
Vive perscrutando
qual sinal de gracejo
lhe trará encanto.

Um passo atrapalhado e os caminhos enroscam.
Um sorriso e os olhos estalam.
Tudo perdido, tudo encontrado.
Tudo certo, nad'é errado.
Amor começa, amor se acaba.
Os homens se debruçam,
as mulheres se afastam.

E... se engatam,
o trem vai
até o deserto...
ver de perto quem é esse
que secou toda mágoa;
ver, desperto, quem é ela,
sozinhos na terra erma,
e beber do seu oásis.

E viver ali:
sólidos, líquidos, cosmos,
espanto contente nos olhos.
E viver ali:
ótimos, vívidos, pólos,
enquanto tangerem os poros.
E viver assim.

E se, num dia, vier
O Medo do Fim,
nunca esquecer, nunca esquecer!,
assim como nunca se esquece uma cor,
que é tão tênue o fio do amor
que, de tão delicado, tão fino,
pode ser que dure o infinito.

2 comentários:

  1. Creio que,conscientemente,o poema remete a Drummond.

    Aliás, referências e alusões por metáforas, ritmos ou mesmo por versos citados literalmente formam o destino eterno dos poetas, que vão se transmutando uns nos outros, uns de outros e assim formando uma sopa de maravilhas ao longo dos séculos.

    Falei de Drummond por causa de uma referência, eu diria, direta logo no início:

    "Os homens se debruçam sobre as mulheres
    que esperam os homens
    sentadas, deitadas, engraçadas" (muito bom isso!)

    que me remete a

    "As casas espiam os homens
    que correm atrás de mulheres"
    (Poema de Sete Faces).

    Também pela ironia e o humor.

    A única ressalva sobre esse inspirado poema é que ele foi mudado desde quando o li (e já tinha lido algumas vezes). Preferia a versão anterior, que me foi mais impactante, inclusive quanto ao título. A palavra "relação" já está implícita em todo ele. E também, em vez de...

    "E... se engatam,
    daí o trem vai!"

    ...preferia os versos da versão anterior, mais ambígua e, portanto, mais mágica.

    Mas, enfim, é só a humilde opinião de um leitor seu.

    Saudações!

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  2. Pertinentes, os comentários. Tanto que resultaram no retorno ao título original. Mas, quanto à outra passagem, repare bem que
    "E quando engatam
    o trem vai
    até o deserto..."
    é menos ambíguo, justamente, que
    "E... se engatam,
    daí o trem vai!
    até o deserto..."
    Acho que fica melhor, ritmicamente, com a estrofe anterior, que termina com uma "rejeição" e, a meu ver, não poderia continuar, eloquentemente, sem a pausa, em que o "E" tem a função de "Mas". Experimente as duas, se não servir, só não trocamos aos sábados!

    Quanto ao Drummond, sabia que remetia a ele, mas, justamente!, não conseguia lembrar os versos que me lembravam os dois do início até você dizer.
    Creio que nos identificamos com alguma obra ou artista não porque queremos, mas porque sentimos...
    Pude me sentir como o Grande Buda Drummond por mais ou menos uma hora, depois passou... rs... e até agora... hora, hora e hora... oro e oro e nada!

    Viva!

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