Manifestações de Pablo Megracko

Espaço dedicado às manifestações do companheiro Pablo.

Gabriel

1 de mai de 2011

Maré Cheia

.
Nas esquinas estão traficando
olhares,
drogas,
sustos.
Estão transitando nas calçadas:
vômito,
fumaça,
dinheiro.
Baixaram esbanjando charme,
poeira.

Lua
e sombra.

Brancos são os faróis do inferno.
Negros são o sono e a paz.
Não enxergo! Não enxergo!
E por quê, então?

Mas não há tempo...
Um presságio cruza o ar...
O clarão repica no céu...
Lágrimas!
Algumas bocas tolas se abrem...
algum mosquito sempre entra,
mas nunca os vejo saírem...
enfim.

Enquanto chove, relâmpago.
É noite de lua cheia,
sexta-feira.

Sob os toldos dos estabelecimentos comerciais onde os trabalhadores
[cansaram
o futuro se esconde
da água que Deus mandou para si mesmo.
Relâmpago.

No escuro casual estão traficando
sorrisos,
filhos,
sexo ilícito! Sexo ilícito!
Passou a polícia...

Relâmpago!

"Estão todos proibidos! Mendigos fascistas!"

(Do lado de fora de um casamento luxuoso
a maré vai subindo...)

Um rugido grave e distante quase não se ouve:
Alguns sentem uma pontada de ansiedade...
O coração vibra,
a chuva passou,
vamos andar.

O pólen das fêmeas
faz coçar o nariz dos machos.
Cachos dourados de nuvens rápidas
e vestido negro.

Sonhos rastejam no ar.

O futuro se espalha pelas ruas.
A lua espia,
faz sombra...
Relâmpago.
A lua sumiu.

Estou animado: o mundo de olhos estalados!
Lindas lágrimas inocentes.

Eu não desisto,
procuro vultos no negro de toda pupila.

De passagem, o poeta fala,
encarnado em sua cobaia:
"Cobaias!"
E o espírito do poeta se dissipa no ar...
sua cobaia cai,
bêbada, esquecida...
Relâmpago!

Na noite vigorosa
o tempo pára...
e um velho amigo me lembra daquele pântano.
Fico excitado.
Respiro fundo.
Desejo a estrada.

Mulheres gargalham como lobas bêbadas para a lua cheia.

"Mãezinha está aqui, mãezinha está aqui!,
toda de azul",
(Relâmpago!)
fala a criança
e passa.

Espírito?
Passou um...
agora mesmo.
E passa.

Vejam! Realmente...
o mundo está doido.
Os cachorros latem...
a lua está cheia demais!
Insisto.

...
(...estou de olhos fechados.
Meu bem segura a minha mão.
Estamos na beira do mar.
Relâmpago no Fundo do Mar!)
...

Dou um trago na fumaça,
abro os olhos, seguro e passo.
Agora vejo seres imortais desmanchando no solo.
Soa a sirene da fábrica, estamos em guerra!:
Vem a tempestade!
Relâmpago.
Vento de sonhos.
Cidades, Esconderijos, Florestas:
Relâmpago.
(O clarão repica no céu)
Saudade...
efêmera.
O futuro aparece e esconde.
Pântano!
Aí vem a tempestade.
Os corações transbordam juntos...
memórias, relâmpago!
(o tempo pára)
(Os gatos se escondem, atentos.
Os cães detentos choram;
os livres se juntam aos gatos)
A cidade está subindo, relâmpago!
O mar está crescendo... tântrico...

Rua, ar fresco, pessoas, bares, música.
Mulheres & Homens.
Bonança, agora.
Risos & Sorrisos.
Noite...
Vozes doces, tilintar de copos de cerveja...
Silêncio...
Risada, vozes doces, brindes, olhares...
olhares & sons...
Silêncio... um presságio cruza o ar.
-- o vento...
Acendo um cigarro, contemplo o movimento
e espero...
espero...
(sons)
vozes, brindes, a rua...
o coração palpita: um trago...
Uma lembrança, o futuro, uma angústia...
um tempo, um vulto...
bonito!
Um trago... solto... olho:
estrela, nuvem, lua...
Cheia! Cheia!!
Maré?, a vida?, surpresa!:
Memória?:
Relâmpago!
Quântico?
Relâmpago! Relâmpago!!!
Marejam
os olhos
e entendo!:
Relâmpago!
A vida está sendo!
Meu Deus, Relâmpago!
Os homens estão a sonhar.
Vejo os olhos, negros, no ar...
relâmpagos...
Os homens estão a sonhar.

(pausa...
silêncio...
expectativa...
...
...

...)

Em um único, potente e grave estrondo,
exatamente no meio da noite,
sôa o Trovão

(...
...

...),

enche de ondas o coração...
A vida vibra
como se tivesse acabado de criar.

Todos, disfarçadamente, olham para o céu,
desconfiados...
e, sem pressa, voltam a conversar.
Dou o último trago
e vejo tudo continuar.
O estrondo ecoa pelo meu corpo.
Vozes doces, noite fresca para amar.

A paixão continua no ar
e os copos a dançar.
Me levanto, vou embora.
Agora caminho na rua molhada,
brilhante.

Cachos negros de nuvens lentas
e vestido branco.
A tempestade passou.

Nas esquinas estão rindo,
beijando,
passando...
passando...

Um último, disperso e grave coro
ruge do céu já de estrelas...
sonhos flutuam luar...
E a noite abre suas asas...
porque a noite é infinita.

E a lua dourando me lembra,
como no velho presságio,
que também é infinito o mar.

10 comentários:

  1. Ga, entrei outro dia aqui e não deu tempo de comentar, e voltei hoje, pois preciso dizer que não tenho como ficar falando muito das coisas que sempre soube, como seu potencial e etc, coisas q vc sempre soube, e q nós sempre teremos algo novo a descobrir.
    O mérito se tornou algo tão pessoal com o passar do tempo que eu me sinto meio, atordoada, mas na boa fé sabe, com medo de invadir o espaço e acabar atrapalhando. Mas não vou pedir desculpas dessa vez, ok?rs
    Ah, deixa eu contar, ontem, no dia de Yemanjah, a chuva invadiu Santos. Estava eu no bar(como sempre), que encheu muito rapido, me deixando com água nos joelhos(nos dois sentidos). Uma senhorinha extretemamente simpática começou a brincar com os pés na aguaceira, e contar que quando era criança, numa situação dessas, fazia barquinhos de papel e se divertia horrores.
    Fiquei pensando nela, ali, no meio da enchente, soltando barquinhos, Deus que cena, ela era uma figurinha linda e feliz.
    A melhor parte da noite, foi voltar pra casa e ver a calçada da av da praia cheia de água, e essa água toda batendo no paredão de prédios, fazendo ondinhas nos muros, e meus pés ali embaixo, fazendo ploc, ploc, ploc. Sensacional. E ao olhar pro outro lado, e não enxergar o mar??? Onde será foi parar a dona Jana, Janaína? Ahuahuah Uma chuva tenebrosa, fazendo batuque louco, acho q ela tava em toda parte, reinando com sempre, no meio da vibração, até um cheiro delicioso e acentuado de sal pairava no ar.
    Enfim, é isso, algumas lembranças de Santos para você.
    Beijos,
    Anna.

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  2. Gabriel, estou sem fôlego pós-leitura deste seu poema magnífico. Ontem o Edu me mandou o link para ver essa beleza que você escreveu. Confesso que vim dar uma olhada rápida, meio assim, só pra não deixar o amigo na mão, sabe?! Que surpresa magnífica encontrar aqui esse baita poema - em todos os sentidos. Vou copiá-lo, vou relê-lo, vou comentá-lo com você mais pra frente, se você quiser, claro. Mas saiba que você acaba de conquistar mais uma leitora. Quem escreve o verso "A lua está cheia demais!!" merece ser respeitado.

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  3. Olá Querido.
    Eu realmente me encantei com as coisas que escreve aqui, e como a poesia escrita no papel que me entregou no trem. Realmente me encantei.
    Tuas palavras são profundas, e de alguma maneira atingem a existência de quem as lê. Isso foi incrível para mim.
    Espero realmente que você possa ir assistir a meu espetáculo "Sobre Espelhos e Rosas" no SESI da estação Prefeito Saladino. Seria um prazer vê-lo por lá e (talvez) poder receber outro brilho de poesia.

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  4. E ae Gabriel, beleza? Sou o rapaz da boina e do violão lá da Casa das Rosas.
    Cara, eu estava lendo seu blog e realmente me encantei por suas palavras, seus poemas e suas idéias excepcionais, de verdade. Espero que siga em frente divulgando sua poesia, que tenha muitíssimo sucesso com elas e que retorne á Casa das Rosas em breve pra voltarmos á nossa conversa, e claro, me ver tocar aquela viola.

    Me adiciona la no MSN pra conversarmos sobre os futuros eventos, recitais e palestras dessa vida. Abraços, e mais uma vez muito sucesso poeta;

    clebercrodrigues@hotmail.com

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  5. a maré cheia são os transeuntes eufóricos em meio a tempestade que se aproxima. o relâmpago é o presságio do que surgirá com a passagem da tenebrosa nuvem-homem. aguardemos.
    seu amigo Pedro Ribaneto.

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  6. e ai cara,eu estava na casa das rosas, toquei uma música com um violão emprestado, Alexandre me chamam. há um talento em você e provavelmente pra você ,assim como para mim, escrever é uma necessidade sem a qual não poderíamos viver.
    bom também tenho um blogESIA
    alelow.blogspot.com

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  7. Gabriel, que pena!
    Mas essas coisas acontecem.
    É uma pena mesmo porque a temporada acabou, ficamos o mês todo de fevereiro, mas aquele era o último final de semana.
    Terão outras oportunidades, eu espero!
    Tem msn? Assim conversamos melhor...

    Um beijo.

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  8. O olhar cauteloso de um verdadeiro poeta e as impressões de quem nunca deixa de aprender!
    Finalmente vou poder ler (e reler) estes poemas com a calma e a atenção que merecem.
    Eles me deixam mais perto de você e, por consequência, perto de mim.
    Pode ser que isso ajude na idéia dos poemas musicados.
    Até logo! Por favor...
    Gi.

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  9. nas esquinas, aos olhos de deus. relâmpago!
    numa paz negra, escura, onde está o nada?
    o mundo está sendo, nós mesmos, já morremos!
    saudade, que nada!

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